
Na próxima segunda, dia 29, Rafaela Silva vai subir no tatame para a terceira Olimpíada da carreira. Poderia ser a quarta, mas um doping que ela até hoje considera de punição "bem severa" a tirou de Tóquio. Aos 32 anos, Rafa afastou os fantasmas de Londres 2012, o entusiasmo e a euforia do ouro em casa na Rio 2016 e a decepção de Tóquio para chegar em Paris com fome de pódio. E de hambúrguer, que ela já mira ali na dobra da esquina de mais uma medalha para a coleção.

A judoca contou como foi a preparação para as Olimpíadas e refletiu sobre o amadurecimento como atleta e sobre como a carreira vitoriosa fez uma mulher preta, lésbica e saída da Cidade de Deus ser "aceita" numa sociedade preconceituosa.
A medalha ajudou para que eu fosse aceita na sociedade. Porque eu tenho amigos que não são aceitos pela família, mas falam que aquele familiar me ama. Porque eu sou a campeã por isso, por aquilo, mas eu sou a mesma pessoa que o familiar dele. Por que a pessoa me aceita, só porque eu tenho a medalha? Porque eu sou campeã? Eu sou um ser humano como o sobrinho, o filho ou algo do tipo, então são coisas que às vezes eu acredito que a medalha me deu essa oportunidade de poder viver um pouco sem preconceito".

Num dos trechos da conversa, a judoca de 32 anos relembrou um episódio marcante de violência vivido na infância. De família muito pobre, ela deixou a Cidade de Deus após iniciar a carreira no judô.
Lembro que teve uma vez, acho que tinha uns 11 anos e a minha prima tinha seis. A gente estava sentada no portão, todo mundo brincando, conversando, aí começou o tiroteio, e todo mundo saiu correndo. Quando chegou dentro da casa da minha tia, aí falou: "ué, cadê a Débora?" Aí a gente lembrou que ela era criança, não entendia o que estava acontecendo, e ela ficou na rua sozinha. Fomos correndo lá no tiroteio, pegamos minha prima e voltamos para dentro de casa. Eram essas situações que a gente convivia lá no dia a dia".
Rafaela Silva também lembrou um episódio vivido em 2012. Desclassificada das Olimpíadas de Londres 2012 por causa de um golpe irregular, ela discutiu com torcedores em uma rede social, recebendo diversos insultos racistas. As ofensas mexeram tanto com a atleta que ela pensou em abandonar o judô naquele momento.

Lá atrás eu quase abandonei o judô por comentários que as pessoas fizeram. Só que as pessoas não sabem o tanto que eu treino, o tanto que eu já abdiquei da minha vida, o tanto que a minha família já abdicou da vida deles para me incentivar dentro do judô. Então hoje eu procuro focar na minha família, em dar importância para as pessoas que me acompanham, que se doam no meu dia a dia, para eu realizar o meu sonho".
Por fim, Rafaela também revelou que a raiva costuma ser um dos seus combustíveis no judô. Na conversa com o ge, a judoca disse que procura aproveitar as provocações das rivais para se motivar.
Eu consigo diferenciar e não sair do foco. Porque às vezes você quer que aquele atleta passe, ou quer que aquele atleta perca, aí às vezes você acaba se descontrolando. E você queria lutar com ele que era mais fácil, mas você não passou nem da sua. Mas eu consigo me concentrar assim e prestar atenção um pouquinho em cada coisa".
Ficha técnica
Nome completo: Rafaela Lopes Silva
Nascimento: Rio de Janeiro, 24 de abril de 1992 (32 anos)
Categoria: -57kg feminina
Carreira: criada na comunidade carioca Cidade de Deus, Rafaela Silva foi descoberta pelo Instituto Reação, coordenado pelo medalhista olímpico Flávio Canto. Em 2008, ganhou uma das etapas da Copa do Mundo de judô e tornou-se campeã mundial sub-20. Em 2011, aos 19 anos, já estava competindo nos Jogos Pan-Americanos e no Mundial, ambos da categoria adulta. Rafaela participou de duas edições dos Jogos Olímpicos (Londres 2012 e Rio 2016).

Títulos: Ouro nos Jogos Olímpicos do Rio 2016; ouro no Mundial do Rio 2013, ouro no Mundial de Tashkent 2022; prata no Mundial de Paris 2011; prata no Mundial do Rio 2013 (equipes); prata no Mundial de Budapeste 2017 (equipes mistas); bronze no Mundial de Tóquio 2019; bronze no Mundial de Tóquio 2019 (equipes mistas); ouro no Pan-Americano de Santiago 2023; prata no Pan-Americano de Lima 2019; prata no Pan-Americano de Guadalajara 2011; prata no Pan-Americano de Santiago 2023; bronze no Pan-Americano de Toronto 2015; ouro no Mundial Militar de Mungyeong 2015; ouro no Mundial Militar de Mungyeong 2015 (equipes).
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