Paraíba

Gerson de Melo Machado, que tinha transtornos mentais, escalou parede e invadiu recinto de animais no Parque da Bica, em João Pessoa

Josenise de Andrade, delegada adjunta da Delegacia Especializada de Homicídios de João Pessoa (PB), disse que a morte de Gerson de Melo Machado, o Vaqueirinho, a princípio, foi uma "fatalidade". Nesse domingo (30/11), o jovem de 19 anos invadiu o recinto de felinos do Parque Zoobotânico Arruda Câmara, conhecido como Bica, e acabou morto em decorrência dos ferimentos do ataque de uma leoa. Os investigadores aguardam a elaboração de laudos de perícia para a conclusão do caso.

Segundo Josenise, informações policiais extraoficiais apontam que Vaqueirinho era "conhecido" por passagens anteriores por crimes como dano e furto e atos análogos, quando era menor de idade.

 Apesar do histórico, ele nunca havia tentado invadir o Parque da Bica e só foi reconhecido depois do ataque, disse a investigadora. Quando chegou ao local, ela ouviu de testemunhas, inclusive funcionários do parque, que o jovem relatou o desejo de se aproximar dos animais.

— Ele verbalizou a ideia de ver o animal mais de perto, o que bate com informações de policiais de que ele, mais de uma vez, e numa postagem de uma conselheira tutelar, que ele verbalizava a vontade de ir para a África cuidar dos leões. No vídeo, a gente pode ver ele descendo pela árvore, e as pessoas gritam, dizem para voltar. Ele poderia ter voltado, mas ele desce. Ao que parece, ele não tinha a intenção de atentar contra a própria vida, mas de se aproximar dos animais. Pelo histórico que me foi passado, ele tinha comprometimento psiquiátrico. Ele não teve a noção do perigo — disse Josenise.

Após a confirmação da morte, a conselheira tutelar Verônica Oliveira usou as redes sociais para se despedir do jovem e relatar os oito anos de luta por tratamento. Segundo ela, o jovem tinha o sonho de domar leões e uma trajetória de vulnerabilidade e abandono.

Vaqueirinho foi atendido pelo Conselho Tutelar de Mangabeira dos 10 aos 18 anos de idade. Ele era filho e neto de mãe e avós esquizofrênicos, segundo Verônica.

A administração do parque informou à delegada que Vaqueirinho escalou um muro de cerca de seis metros. O vídeo do caso mostra que ele ainda percorreu a extensão de uma grade, acima do muro, de cerca de 1,5 metro. Josenise afirmou que várias pessoas tentaram impedir a ação do jovem.

— Avaliações sobre o local só poderão ser feitas depois de concluída a perícia. Um perito de local mediu. Mas, a princípio, conforme me informaram, tem esse muro e ainda a grade. Ele acessou por uma árvore externa à jaula. Ele consegue acesso a essa grade, por onde sai andando, e as pessoas gritam para que ele não continue, não desça. Quando chega a Guarda Municipal, eles tentam pegar um extintor de incêndio, pedem para ele subir de volta. Ele não atende nenhum chamado. As pessoas podem pensar: 'Não tem como um ser humano subir ali'. Mas ele, que não tinha freios, talvez não visse esse obstáculo — relatou a delegada.

Josenise detalha que, ao chegar no local, o corpo de Vaqueirinho estava de bruços, com o rosto na areia. As pessoas ao redor não sabiam quem ele era. O reconhecimento oficial só se deu no Instituto de Polícia Científica, mas antes disso, extraoficialmente, agentes identificaram de quem se tratava por causa de vídeos em que ele aparecia, por exemplo, jogando uma pedra numa viatura policial.

A delegada afirmou ter determinado o fechamento do parque ao receber a notícia da morte. Após a retirada do corpo, porém, ela autorizou que a administração do zoológico gerisse a visitação como achasse mais prudente. O caso agora vai ser encaminhado para a delegacia responsável.

— Após a conclusão das perícias, muita coisa vai ser dita. Mas a questão é que ele não tinha acompanhamento familiar, a mãe era esquizofrênica. A polícia fica limitada, são casos que fogem à nossa atribuição. A princípio, eu, como leiga na questão do parque, e eles me disseram que estão além das exigências técnicas e normativas, penso que foi uma fatalidade. Ele não foi devorado pela leoa. Acho que ela pode ter agido no instinto de proteção ou até mesmo de brincar — relatou a delegada.

Diretor de presídio fez alerta

O diretor da Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega (Presídio do Róger), Edmilson Alves, o Selva, alertou sobre as condições psíquicas de Vaqueirinho, dias antes de o jovem de 19 anos invadir o recinto de felinos do parque. Pelas redes sociais, Selva e o chefe de disciplina da unidade prisional, Ivison Lira, lamentaram a morte de Vaqueirinho, que classificaram como uma "tragédia anunciada".

Selva estava em Campina Grande (PB) para uma confraternização de colegas quando soube do caso de Vaqueirinho. Ele ressaltou que, na semana passada, havia comentado publicamente que o rapaz — egresso do Róger — "precisava de ajuda". Segundo o diretor do presídio do Róger, a Justiça determinou que o jovem fosse levado para um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), de onde ele teria fugido.

— Na semana passada a gente falou tanto de Vaqueirinho. Fiz um vídeo falando da situação da cabeça dele, do que a gente tinha passado no presídio e que ele era uma pessoa que precisava de ajuda, precisava de tratamento. O local dele também não era o presídio, e a Justiça decidiu para ele ir para o Caps. O Caps não segura, ele fugiu — disse. — Vaqueirinho tinha 16 passagens pela polícia: dez no presídio de menor [de idade] e seis no presídio de maior. Ele não conheceu outra vida senão a prisão. A gente chama de preso institucionalizado.

Selva disse que ele e outros trabalhadores do Presídio do Róger travaram uma "luta muito grande" por Vaqueirinho. Ivison Lira, identificado como chefe de disciplina do Presídio do Róger, relatou que o jovem agia como se tivesse 5 anos de idade.

— A gente sabia que era uma tragédia anunciada. Vaqueirinho sem o devido tratamento, sem acompanhamento, numa rua. Tá aí o resultado. Infelizmente a gente via que o raciocínio dele era de uma criança de 5 anos. Não processava tanto. Tudo era condicionado à troca, a bombons, algo do tipo, para poder ele não se rebelar. Mas era fácil de lidar com ele desse tipo. Precisava de uma atenção maior — afirmou Ivison

Há pouco menos de uma semana, Selva compartilhou com os seguidores um vídeo em que alertava sobre a situação de Vaqueirinho. No último dia 24, o jovem havia sido preso duas vezes em apenas uma hora: por danificar um caixa eletrônico e, depois, arremessar uma pedra numa viatura policial, em João Pessoa. A imprensa local reportou que ele disse preferir ser detido a ficar nas ruas.

Segundo o diretor, o jovem antes disso ficou detido na Penitenciária do Róger sob medicação, que precisou ser trocada várias vezes na tentativa de controlar o quadro.

— Quem conversar com Vaqueirinho dez minutos, cinco minutos, vai saber que ele não é uma pessoa normal. Vaqueirinho tem problema, ele é acompanhado, ele tem laudo. O tempo que ele passou no presídio, ele passou sob medicação. Surtou várias vezes, se automutilou, bateu com cabeça na parede, e o Diabo a quatro, porque ele é alguém que tem problemas mentais — relatou ele.

Selva relatou que Vaqueirinho estava "sempre envolvido em delitos de furto e dano". O objetivo do jovem seria voltar para o presídio.

— Dessa vez ele foi preso, teve um TCO (Termo Circunstanciado), e o delegado liberou. O que ele queria de fato era voltar para o presídio, tanto que pegou uma pedra e jogou na viatura para provocar uma volta à delegacia porque, segundo ele, não queria mais ficar nas ruas. É muito delicada situação do Vaqueirinho — relatou, dias antes da morte.

Selva acrescentou que, da última vez em que Vaqueirinho recebeu o alvará de soltura, o próprio diretor foi levá-lo à casa da avó, com os remédios. Lá, segundo ele, "foi constatado que a avó não tinha as mínimas condições de tê-lo".

— A família não quer ele de volta. Então, ele foi para Recife. De Recife, voltou para cá fazendo esses dois delitos de forma a voltar para o presídio de novo. É um preso que toma remédio controlado, que tem que ser acompanhado e que tem problemas mentais sérios — alertou, na ocasião.

O Globo

 

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